8 de mar de 2012

COMPORTAMENTO POR MONTSERRAT MARTINS

Não dá nada
Por Montserrat Martins*

Não é o futebol, é a relação entre o público e o privado que está em jogo. A proposta da construtora que não quer construir ao banco estadual gaúcho foi indecorosa: dar apenas 20 % de garantias por um empréstimo a ser tomado já em condições privilegiadas, inacessíveis aos comuns mortais. Ofendendo a inteligência da população, com absoluta indiferença pela opinião pública, demonstra que se considera acima de tudo.

“Não dá nada”, frase típica de jovens infratores sobre a sensação de impunidade, é muito mais verdadeira para os que, como esta construtora, desfrutam da posição de donas do país e do mundo. Que de fato são, detendo o poder econômico, mas até então o faziam sem ostentar tanto. Como entender a total perda de decoro, uma espécie de “la belle indifférence” em sua relação com a sociedade ? Estamos falando de um evento internacional de grande porte, de cuja realização aqui dependem empregos, obras de infra-estrutura, rede hoteleira, comércio, etecétera. A Copa do Mundo é um negócio, no qual o esporte é apenas um mote para a exposição do país na mídia internacional. Assim é que as obras em estádios – é o caso da construtora em questão – se tornam de interesse público.

Está na moda zelar pela imagem das empresas, suas marcas e suas relações com o público que, ao final das contas, é quem as sustenta. Não no caso das empreiteiras, que não dependem diretamente do público mas sim dos governos e mais especificamente de seus bastidores, no mundo muito próprio das licitações. Seria de sua natureza, então, a indiferença à opinião pública ? Seja qual for a explicação correta, dentro das peculiaridades dessa área de empreendimentos, a única coisa visível nessa história toda é a absoluta falta cuidados no trato com a sociedade. Se isso fosse importante para a construtora, pensaríamos que seus relações públicas são tão ineficazes quanto os anjos da guarda dos Kennedy. Mas não é o caso, porque nada indica qualquer consideração com o ambiente social. Só os interesses econômicos imediatos da empresa vem à tona, de modo mais que sincero, explícito, sem escrúpulos, à la “capitalismo selvagem”, despido de sutilezas pós-modernas.

Essa arrogância não é nova na história, só parecia estar fora de moda. Numa analogia exagerada, caricata e apenas para efeito didático, podemos citar o desdém de Bush com a comunidade internacional ao alegar que o Iraque tinha armas químicas, mentira que lhe desmoralizou mais adiante. Exemplo supremo de arrogância é o mostrado no filme “O Patriota”, retratando os ingleses que então se achavam eternamente superiores aos seus colonizados. Essas histórias servem para nos lembrar que a sensação de “não dá nada” pode parecer realista num país onde os poderosos servem “pizza” ao público todos os dias, mas é enganosa a longo prazo. A sensação de que as coisas não mudam é um retrato do momento, mas não se confirma na história – dê uma espiada em “Uma Breve História do Século XX” para se sentir no mundo do início do século passado, só para conferir.

Buenas, tchê, taí mais um bom motivo pra cuidar da saúde: pra viver mais, pelo menos o suficiente para assistir ao fim “era da pizza” nesta incipiente civilização brasileira. Ah, e ainda uma campanha publicitária da construtora, com o atualíssimo discurso da “sustentabilidade”.

Montserrat Martins* psiquiatra, ambientalista e escritor de Porto Alegre/RS/- Colaborador semanal do Blog Ponto de Vista

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