10 de abr de 2015

COMPORTAMENTO POR MONTSERRAT MARTINS

Paixão por futebol

                                                  Montserrat Martins


    A paixão por futebol aproxima as pessoas de modo instantâneo, gente que nunca tinha se visto antes ao se encontrar num mesmo ambiente e começar a discutir o assunto descobre afinidades imediatas, ou contrariedades eternas, num clima de intimidade que não costuma ser visto em nenhum outro assunto – ou melhor, só comparável às paixões pelos personagens das telenovelas.

       O esporte era tido como “preparação para a vida”, hoje sabemos que ele faz parte da vida, pela importância que as paixões clubísticas tem na vida das pessoas, hoje elas são a própria vida concreta e não meramente simbólica. O volume de negócios assumiu proporções comerciais inéditas, movimentando um mercado sempre crescente e cada vez mais diversificado de produtos temáticos, que vão além dos materiais esportivos e envolvem as marcas dos clubes em vários outros produtos.

       No futebol “clássico”, pense nas décadas entre os anos 50 até 80, o assunto central era o talento, Pelé e Garrincha como símbolos maiores dessa época. Depois disso ficou claro que esquemas táticos, preparação física e o dito “espírito de grupo” eram tão importantes quanto o talento individual. Cada vez se somam mais fatores a isso, como o marketing clubístico, que gera capacidade de investir no futebol.

       Da era do talento, passamos à era dos grandes eventos e dos grandes negócios, inclusive dos direitos de transmissão pela TV e do direito de imagem, do amor ao clube passamos ao clube-empresa. E como em toda a cadeia de negócios capitalistas, quanto maior a complexidade dos negócios, mas ela se presta ao monopólio.

Os maiores em torcida, Flamengo e Corínthians, recebem mais dinheiro pelas mesmas transmissões de TV do que os demais clubes que jogam o mesmo campeonato brasileiro. Ninguém espera que com tantos interesses envolvidos, a arbitragem possa apitar com o mesmo espírito de isenção, pois ninguém quer prejudicar sua carreira sendo vetado por Corínthians ou Flamengo. O mesmo que ocorre no sul com a dupla Gre-Nal, desfavorecida no Brasileiro diante dos mais poderosos, favorecida no Campeonato Gaúcho contra os outros.

       A paixão pelo futebol se defronta, agora, com o pragmatismo do “mercado”, o que não chega a ser uma novidade mas um acirramento do monopólio. Digamos que um time com folha salarial de 150 mil enfrente um de 10 milhões. Numa hipótese em que o time menor estivesse vencendo por 2x0, digamos, quando chegasse ao segundo tempo ele sofreria no mínimo a marcação de 2 pênaltis e uma expulsão, se o jogo fosse decisivo. Parece exagero? Não só aconteceu (com o Cruzeiro no Campeonato Gaúcho de 2015) como também surgiram “comentaristas de arbitragem” para justificar as marcações. Os negócios não podem parar, mas o futebol perde com isso. Citei o Cruzeiro, poderia ser outro, o caso do Brasil de Pelotas em 2014, mas o que está em jogo é uma paixão maior, pelo futebol.

N.B- Artigo encaminhado para publicação pelo autor


Montserrat Martins* psiquiatra, ambientalista e escritor de Porto Alegre/RS/- Colaborador semanal do Blog Ponto de Vista

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