13 de nov de 2015

O CALVÁRIO DO CAPITÃO PIMENTEL

Uma passagem pela sala do terror
Por José Geraldo Pimentel
Cap.Ref.EB


Não ando muito bem das pernas. Sempre atribui à morte uma coisa natural; até imaginei algumas maneiras como terminaria os meus dias. Mas depois que fiquei internado dois meses e perdi trinta quilos, cheguei à conclusão que a morte é a última etapa da vida. E que viva a vida enquanto a alma não é pequena! (Parodiando Fernando Pessoa).

Duas cirurgias abdominais. Essas intervenções cirúrgicas me criaram uma espécie de pavor ao fato de ficar num quarto de hospital.

Minha passagem pelo CTI após a segunda cirurgia foi traumática. Encontravam-se baixados quatro pacientes. Notei que os médicos que tiravam plantão eram jovens. Não lidavam muito bem com o quadro que se debruçava sobre os seus olhos. Uma das médicas não parava de ligar para o pai pedindo orientação. 

Um médico chegou, aproximou-se de uma paciente, senhora de bastante idade, e observou no tórax um pedaço de adesivo. Ato contínuo puxou. Saiu uma longa tira de tecido gotejando de sangue. A paciente que até o momento se mantivera imóvel, passou a tremer, dando indicação que estava tendo um ataque cardíaco. O médico tentou reanimá-la, mas logo desistia, pois percebeu que ela acabara de falecer.

As médicas observavam em torno da cama, sem uma reação. “Apenas mais um que se foi!”, devem ter imaginado. Eu peguei no sono. Pouco depois abria os olhos e via que a paciente fora colocada num saco plástico. Dois soldados pegaram o saco pelas extremidades e soltaram dentro de uma caixa posta ao lado da cama. 

Pensei: “Se a paciente estivesse viva despertaria com a queda de mais de setenta centímetros de altura!” Horas depois um novo paciente ocupava a cama.

Eu que desde o momento que entrara no CTI solicitava que me encaminhassem logo para um quarto, agora me desesperava. Era um barulho infernal. Aparelhos médicos apitando, latão de lixo que era chutado para os lados. 

Tudo me incomodava e gerava pânico. Só no dia seguinte, com a substituição do médico chefe, pude sair da sala do terror.

Vocês haverão de se indagar: “Perder trinta quilos em dois meses!” É que comida de hospital não combina comigo. O primeiro pedaço de peixe que pus na boca quase vomitei. Daí em diante, mesmo com a assistência da médica nutricionista, que me atendia carinhosamente, mudando o cardápio, eu pus mais comida na boca. Só me alimentava de sucos e caldos que os familiares traziam de casa. Os sucos que eram servidos com as refeições, só tinham cor, nenhum sabor.

O fato de perder muito sangue nas duas cirurgias, o sangue cedido para exames quase que diariamente, e a desnutrição, deixou-me totalmente enfraquecido. Cheguei a tomar duas transfusões de sangue. No banheiro, ao tentar levantar do vaso sanitário, cai de ponta cabeça. Um estrondo e a correria de enfermeiros e médico. Levaram-me de imediato para tirar uma chapa da cabeça. Tudo normal, só uma ardência no couro cabeludo.

Mas se pensa que ficou por aí as minhas estripulias, engana-se. Vivia retirando o sistema que coloca a medicação através de tubos plásticos: Soro fisiológico e antibiótico. A cama tinha que ser trocada de roupa mais de uma vez ao dia, pois era dar vontade de urinar, e lá se ia o líquido pelas laterais da frauda. (Eu um velho guerreiro usando frauda geriátrica!). Ainda assim era mimado pelos enfermeiros. Uma das enfermeiras chegava a me abraçar e beijar no rosto. Os médicos, pelo que percebi nas visitas matinais, ficavam sabendo de tudo.

Resumindo: quando baixou o índice de impregnação na pele, - bloqueio de bílis do fígado para o pâncreas, - deram-me alta, com uma série de recomendações. Uma delas: evitar comer gordura, pois a retirada da vesícula biliar me fragilizara nesse aspecto.

Voltei depois de certo tempo para avaliação dos resultados dos exames que me indicaram. Uma bolsa continuou presa ao lado do ventre. Eu a substituo por uma nova de tempos em tempos, pois o líquido, - primeiro de coloração azul, agora na cor marrom com um cheiro desagradável, - se infiltra na cartolina que envolve a saída de um plástico diretamente colocado no interior do ventre, causa ardência. 

Aproveito e faço uma assepsia com Merthiolate, desinflamando a área.
As biopsias feitas com material da vesícula biliar e da cabeça do pâncreas não acusaram nenhuma anomalia. O médico cirurgião passou-me uma nova série de exames. Conclui o último ontem, uma endoscopia digestiva. O material para exame foi entregue à minha filha para ser levado a um laboratório de análise patológica situado na Rua Buenos Aires, Centro. O HCEx neste momento está com o seu laboratório impedido de funcionar por causa das obras que estão sendo realizadas no prédio.

Nesse ínterim, enquanto não se decide quando retirar a bolsa que pende ao lado, transformando o meu sono num pesadelo, pois não posso deitar do lado direito, criando até calo na coxa esquerda, eu vou acordando de hora e meia em hora e meia. É abrir os olhos e correr para o banheiro. As duas operações me provocaram incontinência urinária.

Para fechar com chave de ouro o meu calvário, numa dessas de fazer um esforço fora do normal, fez surgir uma hérnia abdominal, e o uso de uma cinta que incomoda pinicando a pele. Só falta bater as botas e ter o passamento anunciado pelo médico dentista Mário Monteiro Campos, que de Salvador vai anunciando o adeus dos colegas que se vão deste mundo para outro que não gostaria nunca de aparecer por lá. Uma dica para o meu necrológio: serei cremado e as cinzas jogadas um pouco sobre a sepultura de meu cão Tilim, em Paraty, e o restante atirado no mar. 

A caixa será destruída e jogada na primeira lixeira que aparecer.

Esses problemas geraram em mim uma nova maneira de sentar à mesa e comer. Em casa as refeições são servidas em um prato de sobremesa. Dependendo do tipo de comida, e o sabor, às vezes não chego à metade do prato. Criei um novo hábito: ser seletivo no cardápio e comer só o que me vem à cabeça; mas aí é outra história.

Rio de Janeiro, 12 de novembro de 2015.


http://www.jgpimentel.com.br

1 comentários:

Anônimo,  14 de novembro de 2015 18:23  

É meu caro......más a cabeça continua boa, escrevendo textos coerentes. Um abraço

Pedro Alves de Oliveira - Cáceres-MT.

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